Contos de Mistérios

Depois de lerem contos de mistérios, os alunos foram desafiados a escrever também. Aqui está o resultado de algumas produções.

As Almas Penadas - Roberto Carlos Ramos

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Conto de Mistério

Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível a qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à guisa de senha. Parou debaixo do poste, acendeu um cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas. Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda.
Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O outro sorriu e se aproximou:
Siga-me! - foi a ordem dada com voz cava. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O outro entrou num beco úmido e mal-iluminado e ele - a uma distância de uns dez a doze passos - entrou também.

Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente.
Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas humildes e ar de agricultor parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou - porém - quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse: "É este".
O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro. Um aceno de cabeça foi a resposta. Enfiou a mão no bolso, tirou um bolo de notas e entregou ao parceiro. Depois virou-se para sair. O que entrara com ele disse que ficaria ali.
Saiu então sozinho, caminhando rente às paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher:
- Julieta! Ó Julieta... consegui.
A mulher veio lá de dentro euxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que o marido conseguira mesmo. Ali estava: um quilo de feijão.
  Sérgio Porto - Stanislaw Ponte Preta

Vídeo - Scooby-Doo "Fuga da Mansão Misteriosa"

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O mistério do velho casarão

Perto do rio existia um casarão muito antigo...
Ele estava abandonado há mais de 100 anos...
Sempre que ia passar as férias na casa de sua avó, ele olhava admirado para aquela grande e a misteriosa casa e dizia:.
- Aposto que ali tem um Mistério.. 

 Aquele menino adorava passar as férias na casa de sua avó.
Ele gostava de subir num morro que tinha lá, e ficar olhando os meninos de uma Favela brincando com suas pipas.
- Minha vó disse que, eles moram aí porque não tem pra onde ir. Não sei como aquelas casas não caem lá de cima... 

Do mesmo morro, ele podia ver uma coisa que o deixava muito triste e abatido.
Era um lixão, onde os meninos da favela catavam coisas para vender e restos de comida.
E ele pensava:
- Pra comer comida do lixo só mesmo quem está com muita fome... 

Mas, como ele estava de férias precisava se divertir também. 
Então ele foi brincar com sua pipa. Aquela era a sua brincadeira favorita.
Corria pelo mato, descansava um pouco. Corria de novo, e no fim da brincadeira ficava com tanta fome, que repetia o prato.
Sua avó adorava isso. 

Então, uma tarde, o cordão da sua pipa se quebrou e ela voou para longe.
Ele desesperado correu tentando alcançá-la.
- Preciso pegá-la de volta. Vou atrás e quando ela cair eu pego - ele disse
E correu atrás sempre olhando para cima para não perder de vista. 

É claro que ele não conseguiu reaver sua pipa.
Quando olhou em volta percebeu que estava em um lugar, onde nunca estivera antes.
Então, ao olhar para baixo viu uma coisa que o deixou intrigado.
Era um pequeno rolo de papel amarrado com uma fita e com uma parte enterrada no chão. 

- Deve ter sido a enchente de ontem que o desenterrou - Ele disse enquanto se abaixava para ver o que era.
Ao abrir o pequeno rolo, ele percebeu que havia achado uma espécie de mapa.
E quase sem voz de tão surpreso, ele exclamou:
- Essa não, é um verdadeiro mapa de um Tesouro! 

Então ao examinar o mapa, ele disse espantado:
- Aqui diz que lá no Velho Casarão abandonado existe um Tesouro escondido!
Assim, sem perder tempo ele saiu pelo mato em direção ao Velho Casarão.
Ao avistá-lo de cima de um morro, ele sentiu um calafrio. 

Mas, ele estava muito decidido e disse:
- Vou achar esse Tesouro de qualquer jeito!
Então, ele desceu devagar do morro, e logo chegou no pátio em ruínas da velha casa.
- Puxa, ela é bem maior do que eu pensava - disse admirado. 

Antes de entrar ele deu mais uma olhada no Mapa e disse:
- Aqui diz que o Tesouro está lá dentro, encondido num quarto secreto.
Assim, ele enrolou o Mapa e empurrou a imensa porta da casa.
Ao abrir, a porta fez um barulho tão esquisito que ele quase desistia de entrar. 

Ele ficou espantado com o tamanho da casa por dentro.
Viu que tudo estava em ruínas e que havia muitas coisas quebradas espalhadas pelo chão.
Ele então pensou consigo mesmo:
- O que será que aconteceu aqui pra tudo estar abandonado e em ruínas...
 

Como a luz do Sol entrava pelos buracos no telhado, lá dentro não estava muito escuro. Ele procurou uma mesa, abriu o mapa sobre ela, e pensou:
- Preciso dar mais uma olhada no mapa para saber o que devo fazer agora que já estou dentro da Casa... Humm, aqui diz vá pelo corredor que tem a parede verde, ache a passagem secreta e procure a parede com uma argola... 

Não demorou muito para ele achar o corredor de parede verde.
Quando ele começou a andar pelo corredor, pisou numa tábua solta e esta acionou um mecanismo que fez abrir uma passagem secreta na parede ao seu lado. Ele levou o maior susto, quando viu uma parte da parede se abrir sozinha, e exclamou entusiasmado:
- Só pode ser o quarto secreto...

Ele entrou no quarto secreto e viu que o mesmo era um depósito muito antigo, das coisas da casa.
Outra coisa que ele viu, foi logo abaixo da escadaria, um grande paredão com uma grande argola presa nas pedras.
Então, muito contente, ele disse:
- É a parede de pedra e a argola que o mapa descreve... 

Ele mal via a hora de achar o Tesouro escondido. Como já sabia o que fazer, subiu sobre uma pedra junto da parede da argola e disse:
- Conforme está no mapa, basta puxar com força a argola e algo vai acontecer...Vamos lá...
E usando toda sua força, puxou a grande argola. Uma Pedra começou a sair do paredão. 

Quando a pedra caiu da parede, ele viu que ela escondia um compartimento secreto. Ao olhar lá dentro, ele mal pode respirar com o que viu...
Eram vários pequenos baús todos de ouro e recheados com centenas de moedas de ouro e outras jóias, e quase sem voz disse:
- É o t-tesouro perdido... 

E ele decidiu:
- Agora já posso ajudar as crianças lá do Lixão e também suas famílias, e minha vó, meu pai, minha mãe...
Assim, ele colocou parte do Tesouro em um saco e pensou:
- Vou ter que fazer várias viagens para conseguir levar tudo, mas com calma e paciência, eu consigo...

Alberto Filho
Clique no play para ouvir esta história enquanto lê:
 

O menino que viu uma coisa

Este menino deixou de ir à Escola hoje...
Ele queria ir explorar uma casa abandonada que viu no caminho...
O que será que ele vai achar lá dentro? 
Todo dia era a mesma coisa. Sua mãe entrava no quarto e dizia:
- Dormindo desse jeito você vai acabar chegando atrasado! E ele dizia: 
- Peraí que vou dormir só mais um pouquinho...
Apesar de muito preguiçoso, ele sempre ia para a Escola. Pelo menos era o que ele dizia.  
Mas muitas vezes ficava brincando pela rua e não pisava nem lá.
- Nasci para explorar o Mundo e não para estudar - vivia dizendo.
Um dia a caminho da Escola, uma amiga da sua turma lhe disse:
- Dizem que naquele Casarão tem um tesouro escondido. 
- Dizem também que lá tem um mistério, e aquele que resolver ganha o Tesouro.
Pronto, era tudo que ele queria ouvir. Era seu sonho ficar rico sem fazer força. Então planejou:
- Amanhã, ao invés de ir à Escola, vou explorar esse Casarão, pegar o Tesouro e ficar rico! 
No dia seguinte, sua mãe até estranhou ele ter se levantado tão cedo para ir à aula.
Só que ele não foi. Foi sim, direto para o Casarão. Escondeu sua mochila numa moita ali perto e devagarinho subiu os degraus até a porta.
Pelo que diziam ninguém morava ali há mais de 150 anos. 
Antes de empurrar a porta, ele colocou o ouvido nela para ver se ouvia algum ruído vindo de dentro.
Como nada ouviu resolveu entrar. Ao empurrar a pesada porta, ela fez um barulho que o deixou arrepiado da cabeça aos pés...
Quando ela abriu, uma estranha luz saiu lá de dentro...
Então ele viu uma COISA que não gostaria nunca de ter visto!
Era uma criatura monstruosa que deu uma gargalhada tão terrivel que o deixou paralisado.
E aí a criatura falou:
- Então você gosta de gazear aulas... Você agora vai morar aqui comigo para sempre... 
E a estranha criatura disse ainda:
- Muitos iguais a você já entraram aqui e nunca mais sairam. Venha não seja tão acanhado entre...
Ele não sabe como conseguiu se mexer, mas conseguiu...
Então ele deu o maior carreirão da sua vida, e viu que a Criatura correu atrás para pegá-lo... 
Ele corria e só ouvia o ruído do bicho logo atrás dele.
Correu o mais que pode e entrou numa floresta muito fechada e escura.
- É minha única chance de escapar dele - Pensava aterrorizado.
Então descobriu que estava perdido e já havia anoitecido... 
Nesse momento ele sentiu que estava sendo observado.
Então viu à sua volta olhos ameaçadores olhando para ele de dentro da mata.
Cheio de pavor, pensou na sua mãe e muito arrependido disse:
- Nunca mais deixo de ir à Escola! - E deu o maior grito da sua vida. 
 Foi nesse momento que aconteceu um verdadeiro milagre.
Ele descobriu que estava sonhando e que acabara de acordar...
Pulando de alegria ele disse:
- Então foi tudo um sonho... Foi um sonho para me mostrar que eu estava no caminho errado...
A partir daquele dia, ele nunca mais acordou tarde e nem deixou mais de ir para a Escola.
E todo dia antes de sair dava um beijo na sua mãe e dizia:
- Você é a melhor mãe do mundo. 
Alberto Filho
Há muito tempo, na pequena vila de Águas Claras, todos viviam em perfeita harmonia. As crianças brincavam juntas perto do riacho e, à noite, se reuniam em frente a uma casa abandonada, no alto da colina. A casa era o mistério da vila: nunca alguém havia entrado lá. Mas Molly era muito curiosa e quando passava em frente à velha casa, dava uma espiadinha.
Os pais diziam que lá não morava ninguém. A garota sabia que não era verdade, pois sempre sentia um cheiro gostoso saindo dali.
Molly nunca tinha visto a dona da "casinha mágica" - como ela gostava de chamar -, até que um dia tomou coragem e bateu à porta:
- Quem é? - respondeu de dentro uma voz cansada.
- Sou eu, a Molly - disse a pequena. - Meus pais dizem que aí não mora ninguém, mas eu sei que a senhora existe e gostaria de conversar.
- Vá embora. Nenhum dos pais nunca deixará que seus filhos conheçam a minha velha casa.
- Não vou, não - retorquiu Molly. - O cheiro que vem daí é muito bom e eu estou faminta. Se abrir, posso comer um pedaço de bolo e depois eu vou embora. Ninguém vai descobrir.
Uma velhinha com cara bondosa abriu devagar a porta. Quando a pequena Molly olhou ao redor, ficou maravilhada. Havia biscoitos em forma de coração por toda a casa, chocolate borbulhando nas panelas e umas bolachas dentro de uns potinhos. Ainda tinha mel escorrendo de dentro das vasilhas em formato de ursinhos. Mas o que mais surpreendeu Molly foram as árvores no fundo do quintal, cheinhas de frutas fresquinhas, que podiam ser tiradas do pé e saboreadas na hora.
- Por que a senhora não abre a sua casa para que todos venham aqui ver todos estes quitutes maravilhosos? - indagou Molly.
- Ah, pequena Molly, infelizmente nem todas as pessoas pensam como você. Elas acham que o ato de cozinhar por puro prazer é um pecado...
- Pois falarei a todos que no alto deste vale existe uma pessoa com mãos de fada. E todos, crianças e adultos, virão aqui provar estas iguarias.
Molly organizou uma festa e não disse que as comidas seriam preparadas pela senhorinha misteriosa. Todos amaram as comidas: o amor dava o gosto especial aos alimentos. Desde então, sempre havia alguém na casa da senhora para aprender a arte da culinária ou simplesmente comprar alguma das delícias. E a pequena vila agora se chama "Casa Mágica".

Ariane Bomgosto

Divirta-se!!

O Grito

O Grito é uma pintura do norueguês Edvard Munch, de 1893. A obra representa um momento de profunda angústia e desespero existencial.
O Grito é considerado como uma das obras mais importantes do movimento expressionista.

A Morte e os Gêmeos

Há muito tempo, quando os bichos falavam e o Sol e a Lua nasciam juntos, um casal teve gêmeos, Pedro e Paulo, exatamente à meia-noite. Uma velha adivinha, conhecida da família, disse que Pedro morreria aos vinte anos. Então os pais resolveram confundir a Morte: passaram a chamar Pedro de Paulo pedro e Paulo, de Pedro Paulo.
Quando os gêmeos completaram vinte anos, Paulo Pedro se escondeu num armário, desde bem cedinho. Disse para a mulher:
- Se me procurarem, diga que fui viajar. 
A Morte foi até a casa dele antes a meia-noite – como sempre, vestida de preto, a caveira escondida pelo capuz e a gadanha* na mão direita. Quando a mulher de Paulo Pedro atendeu a porta, a Morte disse:
- Não se assuste. Não é com a senhora. É com seu marido.- Meu marido está viajando.
- Ele devia estar aqui.
- Mas está viajando.- Não, ele se chama Paulo.
    A Morte pensou um pouco e se foi para a casa de Pedro Paulo. Havia uma grande festa lá – muita bebida, muita dança. A Morte foi direto falar com o aniversariante.
    - Você é o Pedro?
    - Sim, sou o Pedro.
    - O quê?!
    - Vamos.
    A Morte não disse nada. Só olhou para Pedro Paulo. Então ele viu que não era alguém fantasiado para a festa.
    - Mas já?!
    - Você sabe, pra morrer basta estar vivo.
    - Isso mesmo. Minha missão, hoje, é levar um sujeito chamado Pedro, com vinte anos.
    - Mas eu também me chamo Paulo.
    - Eu me chamo Pedro Paulo.
    A Morte ficou na dúvida. Resolveu então voltar à casa de Paulo Pedro.
    Não encontrou ninguém.
    - Estão querendo me fazer de boba – a Morte pensou.
    Voltou à festa. Lá estavam os dois irmãos, muito alegres. Pensavam que a Morte tinha desistido.
    A Morte olhou para eles. Mesma cara, mesmos cabelos, mesmas roupas.
    Ela se aproximou.
    - Quem é o Pedro?
    - Eu – os dois disseram. - Pedro Paulo e Paulo Pedro.
    A Morte não costumava se enganar. Nem pensava no assunto. Simplesmente sabia quem tinha de levar. Mas agora estava confusa.
    Pedro Paulo se animou.
    - Você não sabe qual de nós tem de levar. É melhor não levar ninguém, pra não cometer uma injustiça.
    - Vou levar os dois – a Morte disse calmamente. - Assim terei a certeza de que não deixei o irmão certo.
    -  Mas como?! E o errado?!
    - Acidente de trabalho.
    - Posso, sim. Vocês nasceram juntos, morrem juntos.
    - Não nascemos juntos.
    - Eu sou dois minutos mais velho que ele – Paulo Pedro disse orgulhoso.
    - Então é você o Pedro que eu quero – a Morte disse.
    - Ouça.
    O relógio da igreja bateu meia-noite.
    - Está na hora e seu irmão ainda tem dezenove anos.
    E o tocou com a gadanha antes que ele tivesse tempo de se arrepender de ter falado.
    * gadanha = A foice que a morte, mitologicamente usa.
    Ernani Ssó.